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A.G. Sulzberger, editor-chefe do The New York Times, no World News Media Congress da WAN-IFRA

Estudos e Tecnologia, Opinião

Inteligência artificial e comunicação social: Portugal não pode ficar fora desta batalha

5 de Junho de 2026

Artigo de Vítor Almeida – Membro da Direção da Associação Portuguesa de Imprensa

Dia 1 de junho, A.G. Sulzberger, publisher do The New York Times, discursou no congresso mundial da WAN-IFRA e disse, sem eufemismos, aquilo que muitos no setor pensam, mas raramente enunciam com esta clareza: as grandes empresas de inteligência artificial construíram os seus produtos sobre décadas de trabalho jornalístico, sem pedir autorização e sem compensar adequadamente quem o produziu.

O discurso partiu de uma realidade norte-americana, mas as suas implicações são universais. Para a comunicação social portuguesa, em toda a sua diversidade, este é um tema que não pode continuar a ser tratado como um assunto distante ou alheio.

O que está em causa

Os modelos de linguagem que hoje respondem a milhões de perguntas diárias foram treinados com artigos, reportagens, entrevistas e análises produzidos por jornalistas ao longo de décadas. Conteúdos criados por profissionais que verificaram factos, ouviram todas as partes e assumiram responsabilidade pública pelo que publicaram.

O problema não reside na existência da tecnologia, mas na forma como esta tem sido desenvolvida e utilizada. Grande parte do valor gerado pelos sistemas de inteligência artificial resulta da utilização de conteúdos produzidos por terceiros, sem que exista transparência suficiente sobre as fontes utilizadas ou mecanismos de remuneração adequados para os seus criadores.

Com a generalização dos assistentes de IA, a lógica de distribuição da informação está a mudar de forma estrutural. Em muitos casos, o utilizador obtém uma resposta diretamente numa plataforma de inteligência artificial e deixa de visitar o meio de comunicação que produziu a informação original. Diversos estudos internacionais apontam para uma redução significativa do tráfego encaminhado para os órgãos de comunicação social, colocando pressão acrescida sobre modelos de negócio que já enfrentam desafios relevantes.

Esta realidade não invalida a importância de os órgãos de comunicação social se posicionarem como fontes credíveis e relevantes no novo ecossistema digital. Pelo contrário, a autoridade editorial continuará a ser um dos principais fatores diferenciadores dos media. Contudo, a valorização editorial, por si só, não resolve a questão económica. Se os conteúdos jornalísticos forem utilizados para gerar valor por terceiros sem mecanismos de compensação adequados, a sustentabilidade do setor continuará em risco.

O contexto português exige atenção

A comunicação social portuguesa enfrenta fragilidades estruturais conhecidas: a erosão das receitas publicitárias tradicionais, a crescente dificuldade em financiar redações robustas, a precariedade que afeta muitos profissionais e os desafios colocados pela transformação digital.

Portugal mantém uma posição favorável nos indicadores internacionais de liberdade de imprensa, mas isso não deve esconder as dificuldades económicas que muitos órgãos de comunicação social enfrentam diariamente.

A pressão da inteligência artificial chega, assim, a um setor que já se encontra sob forte tensão. E afeta toda a cadeia: dos grupos de media de referência nacional às rádios locais, dos portais digitais à imprensa regional, que cobre o que os meios nacionais raramente conseguem acompanhar com proximidade.

Em Portugal, centenas de jornais regionais e locais asseguram diariamente uma cobertura informativa essencial para as suas comunidades. São estes títulos que acompanham o poder local, as associações, as escolas, as empresas, os agentes culturais e a vida das populações. Quando desaparece um jornal local, não desaparece apenas uma empresa. Desaparece uma parte da memória coletiva, da fiscalização democrática e da proximidade informativa de uma comunidade.

O jornalismo não é apenas um setor económico em dificuldades. É uma infraestrutura democrática. E tratá-lo como tal obriga a que a sua proteção seja encarada com a mesma seriedade com que se protege qualquer outro bem essencial ao funcionamento da sociedade.

Há razões para agir agora

A conjuntura regulatória cria uma janela de oportunidade que não deve ser desperdiçada. Em março deste ano, o Parlamento Europeu aprovou recomendações para reforçar a proteção dos direitos de autor face à inteligência artificial, defendendo que a legislação europeia deve aplicar-se a todos os sistemas disponibilizados no mercado da União Europeia, independentemente do local onde foram treinados, e que os titulares de direitos devem ser remunerados de forma justa pela utilização das suas obras.

Trata-se de um sinal político relevante. Mas as recomendações precisam agora de se traduzir em obrigações concretas, mecanismos de transparência e instrumentos de fiscalização efetivos.

A Associação Portuguesa de Imprensa não tem ficado de braços cruzados. A participação no projeto europeu Strengthening Media in the Age of GenAI, integrado no The Data Tank, constitui um passo concreto para reforçar a posição dos media portugueses neste debate e para contribuir para uma utilização mais equilibrada e responsável da inteligência artificial no ecossistema informativo.

Mas é necessário ir mais longe. Esta é uma causa que exige envolvimento de todo o setor, independentemente da dimensão, localização geográfica ou natureza editorial de cada órgão de comunicação social.

O que é preciso fazer

A resposta tem de ser coletiva e articulada em várias frentes: exigir transparência sobre os conteúdos utilizados no treino dos modelos de inteligência artificial; defender mecanismos de licenciamento que reconheçam o valor económico do jornalismo; promover posições comuns com organizações congéneres europeias e com outros setores criativos; e explicar aos cidadãos o que está verdadeiramente em causa.

Esta não é uma posição contra a inteligência artificial. Pelo contrário. A tecnologia pode trazer ganhos de eficiência, novas ferramentas de investigação e novas formas de relacionamento com as audiências.

O que não é aceitável é que a evolução tecnológica aconteça à custa da sustentabilidade daqueles que produzem informação credível, rigorosa e verificada.

A inteligência artificial representa uma das maiores transformações tecnológicas da história recente. Mas não haverá informação de qualidade para alimentar os sistemas do futuro se deixarmos definhar as organizações que a produzem no presente.

Defender o jornalismo não é travar a inovação. É garantir que a inovação continua a ter matéria-prima credível sobre a qual se construir.

Sulzberger encerrou o seu discurso com uma pergunta que permanece em aberto: o valor criado pelo jornalismo vai continuar a ser apropriado pelas plataformas, ou vai regressar às organizações que o produzem?

A resposta dependerá das decisões que forem tomadas agora. Em Portugal, esse momento é este.

Artigo inspirado na intervenção de A.G. Sulzberger no WAN-IFRA World News Media Congress, realizado em Marselha, França, entre 1 e 3 de junho de 2026.

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