O Future Newsrooms Study 2026 é um relatório produzido pela FT Strategies, em parceria com a WAN-IFRA, com o apoio da Arc XP, e foi apresentado publicamente hoje no 77º World News Media Congress, em Marseille, França.
Metodologia
O relatório examina de que forma as organizações de notícias estão a redefinir a sua estratégia editorial, a relação com as audiências e as capacidades das suas redações.
A questão central que orienta o estudo é a seguinte: como estão as organizações de media a definir, proteger e operacionalizar o seu valor editorial numa era de abundância de conteúdo?
- 448 respondentes em 86 países
- 377 respostas completas + 71 respostas parciais
- 45 perguntas distribuídas por 7 temáticas
- 16 entrevistas qualitativas com líderes editoriais e executivos
- 10 membros num conselho consultivo composto por especialistas editoriais, de inovação, produto e inteligência artificial
- 1 workshop com 20 editores de 8 países e 4 continentes
A amostra inclui redações de todas as dimensões — desde pequenas (menos de 25 colaboradores) a muito grandes (mais de 500) — e abrange organizações fundadas antes de 1990 e as nativas digitais. A maioria dos respondentes ocupa cargos de liderança editorial ou executiva.
O relatório organiza as suas conclusões em torno de quatro fossos críticos que separam o que as redações declaram querer ser daquilo que efetivamente fazem.
1. Estratégia
A maioria das redações afirma ter uma estratégia. O problema está na execução.
O que os dados revelam:
- Apenas 32% das redações apresentam alinhamento estrutural;
- 25% das redações são predominantemente reativas: as prioridades editoriais são determinadas pelos acontecimentos imediatos;
- 42% apresentam um alinhamento laxo: a estratégia informa as prioridades gerais, mas as decisões diárias são tomadas de forma independente pelos editores.
O que isto significa:
- Redações com alinhamento estrutural são as que mais frequentemente realizam revisões anuais ou contínuas do seu portefólio;
- 50% das redações que reveem e descontinuam iniciativas sistematicamente registaram crescimento orçamental, face a apenas 28% das que raramente o fazem;
- 64% das redações ainda desenvolvem histórias para um canal primário (website, imprensa, televisão) e adaptam-nas para outros — apenas 21% começam com uma necessidade de audiência definida.
2. Confiança das audiências
As redações reconhecem a importância de construir confiança com as suas audiências, mas as suas formas de trabalhar dificultam essa construção.
O que os dados revelam:
- Os jornalistas passam 38% do seu tempo em tarefas de produção (escrita, edição, publicação);
- Apenas 11% do tempo é dedicado a trabalho pós-publicação — como envolvimento comunitário, resposta a audiências e revisão de desempenho.
Formatos e abordagens narrativas prioritárias:
- 79% planeiam produzir mais vídeos de formato curto
- 74% vão apostar em explainers (peças explicativas)
- 72% irão investir em texto aprofundado
- 63% em conteúdo visual, interativo e de dados
- 51% em eventos ao vivo e fóruns de audiência
- 51% em newsletters
Implicação para as redações: O jornalismo que constrói confiança não é apenas aquele que informa — é aquele que explica, contextualiza e cria comunidade. As redações que continuam a medir o sucesso apenas pelo volume de publicações estão a subinvestir nas atividades que constroem relações com as audiências.
3. Capacidades e tecnologia
A adoção de inteligência artificial e a modernização tecnológica estão a ser travadas não pela tecnologia em si, mas pelas pessoas e pelos processos.
O que os dados revelam:
- Apenas 14% dos líderes de redação afirmam ter muita ou plena confiança de que as suas ferramentas e tecnologia atuais estão preparadas para as necessidades futuras;
- 20% não têm qualquer confiança;
- Os três principais obstáculos à adoção de IA são:
- 61% — Falta de competências ou conhecimentos internos
- 52% — Resistência cultural ou ceticismo
- 45% — Casos de uso pouco claros ou ausência de orientação estratégica
- 57% das redações não têm representação de IA na redação — e são também as que registam os níveis mais baixos de literacia e utilização de IA;
- Das 22% de redações com equipas de IA integradas na redação, quase metade (46%) reporta elevada literacia e utilização de IA.
O principal KPI de sucesso da IA nas redações:
- 42% medem o sucesso da IA pela poupança de tempo
- Apenas 10% medem pelo impacto no volume de conteúdo
- 9% pelo impacto nas receitas
- 21% ainda não definiram KPIs
Implicação para as redações: Investir em tecnologia sem investir nas pessoas que a vão usar é desperdiçar recursos. A formação estruturada em IA — específica para o contexto jornalístico, não genérica — é um diferenciador crítico.
4. Competências gerais
O jornalismo do futuro exige um conjunto de competências mais amplo, mas as redações não estão a investir na sua construção.
O que os dados revelam:
- 55% das redações consideram que as suas competências atuais são suficientes para alcançar os objetivos presentes;
- Este número cai para 39% quando projetado para um horizonte de três anos;
- 61% das redações não têm programas de formação;
- Das redações que pretendem desenvolver capacidades criativas internas (creator-style journalism), 68% ainda não desenvolveram competências para tais.
Competências mais valorizadas para o futuro:
1️⃣ Jornalismo e tecnologia: jornalismo computacional, prompting de IA;
2️⃣ Envolvimento com audiências: monitorização de tendências, otimização de conteúdo, distribuição multiplataforma;
3️⃣ Produção e edição multimédia: edição de vídeo, animação, edição de som;
4️⃣ Expertise temática: jornalismo de nicho, especialização por área;
5️⃣ Gestão e operações: gestão de projetos, competências comerciais.
Conclusões transversais: o que distingue as redações mais preparadas
O relatório identifica um conjunto de padrões que caracterizam as redações melhor posicionadas para o futuro:
🔹 Alinhamento estratégico-editorial: a estratégia é comunicada regularmente e refletida nas decisões editoriais do dia a dia;
🔹 Disciplina de portefólio: revisão regular e descontinuação de iniciativas de baixo impacto;
🔹 IA integrada na redação: não apenas ao nível executivo ou de suporte, mas diretamente nas equipas editoriais;
🔹 Formação estruturada: programas de desenvolvimento de competências específicos, não genéricos;
🔹 Foco na audiência: o conteúdo é definido pelas necessidades do público, não pelo canal onde será publicado.
Consulte mais informação em detalhe sobre o Future Newsrooms Study 2026 no site do FT Strategies.
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