O Reuters Institute for the Study of Journalism divulgou a 15.ª edição do Digital News Report, um estudo internacional de referência sobre os hábitos de consumo de notícias.
O relatório de 2026 identifica três tendências centrais: a intensificação da plataformização do consumo de notícias, a crescente importância do vídeo e dos criadores de conteúdos, e a evolução dos níveis de confiança do público nos meios de comunicação.
Estrutura do relatório
O documento está organizado em quatro secções. A secção 1 apresenta o resumo executivo e as principais conclusões globais. A secção 2 reúne análises temáticas aprofundadas e comparações internacionais. A secção 3 disponibiliza capítulos dedicados a cada um dos 48 mercados analisados, incluindo Portugal. A secção 4 contém as referências bibliográficas do estudo.
Seis temas em análise
A secção 2 desenvolve seis temas transversais que atravessam os diferentes mercados estudados:
- Utilização emergente de chatbots de IA para consumo de notícias, que analisa o crescimento do recurso a ferramentas de inteligência artificial generativa para aceder a informação e as implicações deste fenómeno para o jornalismo.
- A transição da televisão tradicional para o streaming e as plataformas, que examina a evolução do consumo de vídeo informativo, com destaque para o desempenho de redes como o YouTube, o Instagram e o TikTok face às televisões tradicionais.
- O impacto dos criadores de conteúdos (“news creators”) na política e nos meios de comunicação, que mapeia diferentes ecossistemas de criadores em todo o mundo e o seu papel na formação da opinião pública.
- As razões do declínio das audiências da televisão, da imprensa escrita e da rádio, que compara a evolução destes três meios em diferentes mercados ao longo da última década.
- A procura por notícias imparciais num contexto de plataformização e polarização, que avalia se o público continua a valorizar fontes de informação sem um ponto de vista definido.
- A perceção pública sobre o valor dos media de serviço público, que analisa, em 26 mercados, se a população considera que as emissoras públicas têm um efeito positivo ou negativo na vida do país.
Portugal no Digital News Report 2026
O capítulo dedicado a Portugal, da autoria de Ana Pinto-Martinho, Miguel Paisana e Gustavo Cardoso, do Observatório da Comunicação e do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, descreve um mercado de média em mudança estrutural significativa. O país tem 10,4 milhões de habitantes e uma taxa de penetração da Internet de 88%.
Concentração e reestruturação do setor
O mercado é dominado por quatro grandes grupos de comunicação privados – Impresa, Medialivre (antiga Cofina), Media Capital e Global Media – a par da RTP. Em março de 2026, o grupo italiano MediaForEurope (MFE) adquiriu cerca de um terço da Impresa, detentora da SIC e do Expresso, consolidando a presença do grupo em seis mercados europeus e reforçando a leitura da Península Ibérica como mercado integrado para os anunciantes. Este movimento aumenta a pressão sobre concorrentes como a Media Capital e a Medialivre para acelerarem as respetivas estratégias de diversificação digital.
O setor televisivo mantém-se forte: sete em cada dez portugueses afirmam ter consultado notícias na televisão na semana anterior, a taxa mais elevada entre os 48 mercados analisados. Em 2024, a Medialivre lançou um novo canal de notícias 24 horas, juntando-se aos três já existentes.
O setor da imprensa escrita enfrenta dificuldades acrescidas: o relatório destaca o colapso, em 2025, da editora Trust in News, a maior editora de revistas do país, que levou ao encerramento de títulos históricos como a Visão, a Exame e o Jornal de Letras. A Visão mantém-se em circulação, em formato impresso e digital, através de financiamento coletivo promovido por um grupo de jornalistas.
Políticas públicas e tensões institucionais
O relatório refere a implementação, pelo Governo, de uma nova política de media para o período 2025-2029, sustentada pelos planos de ação para os media e de literacia mediática, com o objetivo de promover a literacia mediática, combater a desinformação e travar o surgimento de desertos informativos. A política prevê ainda um programa de distribuição de imprensa em zonas remotas e pouco povoadas, dotado de 3,5 milhões de euros.
O documento assinala igualmente tensões entre os sindicatos de jornalistas e o Governo a propósito de alterações propostas na agência Lusa, após a recuperação, pelo Estado, da totalidade da propriedade da agência, e a decisão da RTP de unificar as suas marcas sob uma identidade visual única, contestada por jornalistas que temem um enfraquecimento da independência e da diversidade do serviço público de média.
IA nas redações
O relatório cita o Livro Branco sobre Inteligência Artificial no jornalismo em Portugal, segundo o qual a maioria dos jornalistas portugueses carece de formação na área e as redações têm sido lentas a definir políticas internas para o uso de ferramentas de IA, o que pode comprometer os padrões editoriais e a confiança do público. Entre os exemplos de inovação citados, destacam-se os investimentos do Expresso em vídeo vertical e a utilização, pelo canal Conta Lá, de pivots de notícias gerados por IA para a cobertura de resultados eleitorais.
Confiança e consumo de notícias
Segundo os dados do estudo, a confiança geral nas notícias em Portugal situa-se em 51% (menos 3 pontos percentuais do que no ano anterior), o nível mais elevado na Europa fora dos países nórdicos, apesar da tendência de ligeira descida associada à polarização política. A RTP figura entre as marcas mais confiáveis, com a RTP Notícias a registar 79% de confiança, seguida pela Jornal de Notícias (78%) e pela SIC Notícias (77%); a agência Lusa regista 73%.
A proporção de portugueses que paga por notícias online mantém-se baixa, em 8% (menos 2 pontos percentuais). Em sentido inverso, a utilização de redes sociais para consumo de notícias tem vindo a crescer: o Facebook é a rede mais utilizada para notícias (42%, mais 8 pontos), seguido do WhatsApp (30%, mais 9 pontos), do Instagram (25%) e do YouTube (23%). A proporção de portugueses que evita as notícias, ocasional ou frequentemente, é de 37% (mais 2 pontos percentuais).
No que respeita ao alcance semanal das marcas informativas, a SIC (incluindo a SIC Notícias) lidera com 60%, seguida pela CNN Portugal (40%), pela TVI/TVI News (38%) e pela RTP (36%). No universo digital, destacam-se a SIC online (33%), o Notícias ao Minuto (27%) e a Correio da Manhã TV online (23%).
Por fim, o índice mundial de liberdade de imprensa atribui a Portugal, em 2026, uma pontuação de 83,71.
Outros formatos do Digital News Report 2026
Para uma melhor leitura e acessibilidade, pode consultar o formato interativo do Digital News Report aqui. Aceda ao relatório na íntegra no site oficial.
Ouça um resumo em formato podcast ou veja no YouTube.
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