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Opinião

O jornalismo continua a interessar. O problema é chegar às pessoas.

Hoje às 11:55

Artigo de opinião de Vítor Almeida Membro da Direção da Associação Portuguesa de Imprensa

Há dias li uma entrevista publicada pelo State of Digital Publishing que merece a atenção de todos os profissionais dos media. O protagonista era James Smart, responsável pela área de Broadcast e Novos Media da Nation Media Group, um dos maiores grupos de comunicação social africanos.

A determinada altura da conversa, Smart explica porque decidiram criar uma equipa dedicada exclusivamente à produção de conteúdos para plataformas como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts.

A resposta chamou-me a atenção pela simplicidade.

O problema não era a qualidade do jornalismo.

O problema era que as pessoas não o estavam a encontrar.

Esta frase resume um dos maiores desafios que os media enfrentam atualmente.

Durante muitos anos acreditámos que produzir bom jornalismo era suficiente para chegar às audiências. Hoje sabemos que não é.

Continuamos a precisar de informação rigorosa, independente e relevante. Mas também precisamos de garantir que ela consegue atravessar um ambiente digital onde a atenção é
disputada a cada segundo.

A notícia já não compete apenas com outras notícias.

Compete com vídeos de entretenimento, influenciadores, séries, podcasts, memes e milhares de outros conteúdos que ocupam diariamente os ecrãs dos utilizadores.

Entretanto, os hábitos de consumo mudaram.

Uma parte crescente da população, sobretudo os mais jovens, não começa o dia a visitar um website de notícias nem espera pelo telejornal da noite. A informação surge-lhes através dos feeds das redes sociais, misturada com tudo o resto.

Podemos gostar mais ou menos desta realidade.

Mas não podemos ignorá-la.

Foi precisamente isso que a Nation Media Group percebeu. Em vez de se limitar a adaptar conteúdos produzidos para outros formatos, decidiu criar uma linguagem própria para chegar às audiências onde elas já estavam.

O mais interessante é que o objetivo não era produzir entretenimento.

Era fazer chegar o jornalismo a mais pessoas.

Esta diferença é importante.

Muitas vezes o debate sobre plataformas digitais é apresentado como uma escolha entre
qualidade e alcance. Entre jornalismo sério e conteúdos para redes sociais.

Na prática, essa oposição faz cada vez menos sentido.

O verdadeiro desafio está em manter os mesmos padrões editoriais, encontrando simultaneamente novas formas de distribuição.

Porque a questão central deixou de ser apenas o que publicamos.

Passou a ser como as pessoas descobrem aquilo que publicamos.

Esta é uma reflexão que interessa a todos os media portugueses.

Interessa aos grandes grupos nacionais, aos jornais regionais, às rádios, às televisões e aos projetos digitais independentes.

Todos enfrentam a mesma pergunta: como garantir que o jornalismo continua visível num mundo onde a abundância de conteúdos nunca foi tão grande?

Não existem respostas fáceis.

Mas existe uma certeza.

A sustentabilidade dos media dependerá cada vez mais da capacidade de ligar produção e distribuição.

Produzir bom jornalismo continuará a ser a nossa principal missão.

Garantir que ele chega às pessoas poderá ser o nosso maior desafio.

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