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Sustentabilidade, inteligência artificial e imprensa regional no centro do debate sobre o futuro dos media portugueses

Hoje às 9:55

O Grande Debate do Dia Nacional da Imprensa 2026 reuniu responsáveis de grupos de comunicação social, representantes da imprensa regional e especialistas do setor. A necessidade de encontrar novos modelos de negócio, garantir uma concorrência equilibrada com as plataformas tecnológicas e assegurar a remuneração dos conteúdos jornalísticos marcou a discussão.

A sustentabilidade económica do jornalismo, o impacto da inteligência artificial e o futuro da imprensa regional e local estiveram no centro do Grande Debate “O Futuro dos Media Portugueses”, realizado a 16 de outubro, em Lisboa, no âmbito do Dia Nacional da Imprensa 2026, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa (API).

Moderado por Carla Ascenção, o painel reuniu Carlos Eugénio, diretor executivo da VISAPRESS, Nuno Francisco, diretor do Jornal do Fundão, James Hewes, consultor estratégico para os media, Carlos Rodrigues, diretor-geral editorial da Medialivre, e Ricardo Costa, Chief Product Officer do Grupo Impresa.

A discussão partiu de uma questão central: que decisões devem ser tomadas para garantir que, dentro de cinco ou dez anos, Portugal continue a ter jornalismo independente, relevante e economicamente viável?

Carlos Rodrigues, diretor-geral editorial da Medialivre

Independência editorial exige sustentabilidade económica

A necessidade de assegurar a viabilidade financeira das empresas jornalísticas foi um dos primeiros pontos de convergência entre os participantes.

Carlos Rodrigues defendeu que os órgãos de comunicação social devem adotar modelos de gestão capazes de garantir receitas superiores às despesas, considerando que a sustentabilidade económica é indispensável à independência jornalística.

O responsável da MediaLivre recordou o princípio defendido por Francisco Pinto Balsemão, segundo o qual a rentabilidade constitui uma condição essencial para que os jornalistas possam exercer a sua atividade com liberdade.

Ricardo Costa, Chief Product Officer do Grupo Impresa

Ricardo Costa reforçou esta ideia, recordando que “a independência económica precede a independência editorial”, um princípio que, segundo explicou, está consagrado nos estatutos editoriais do Expresso e da SIC.

Contudo, alertou que as condições de mercado se alteraram profundamente com a internet, o crescimento das grandes plataformas tecnológicas e, mais recentemente, a inteligência artificial.

O responsável do Grupo Impresa defendeu a necessidade de atualizar a legislação e garantir condições de concorrência equivalentes entre os órgãos de comunicação social e as plataformas digitais, particularmente no mercado publicitário.

Nuno Francisco, diretor do Jornal do Fundão

Imprensa regional encontra na proximidade uma vantagem competitiva

A realidade dos órgãos de comunicação social regionais e locais foi abordada por Nuno Francisco, que apresentou a experiência do Jornal do Fundão.

O diretor recordou que, em 2018, o jornal passou para as mãos de um grupo de jornalistas e professores da Universidade da Beira Interior, depois de o anterior proprietário ter decidido abandonar o projeto.

Perante as dificuldades económicas, a estratégia passou por recuperar os valores que historicamente distinguiram a publicação: o jornalismo de proximidade, a ligação ao território e a valorização da cultura.

“O Jornal do Fundão hoje está vivo porque foi às suas raízes buscar essa força”, afirmou.

Nuno Francisco apresentou como exemplo o projeto “Interioridades”, que leva debates e responsáveis políticos diretamente às aldeias, aproximando a discussão pública das comunidades.

Para o jornalista, o sentimento de pertença dos leitores constitui uma das principais forças da imprensa regional, num contexto em que muitos títulos enfrentam dificuldades para investir em tecnologia e manter equipas jornalísticas.

Alertou ainda para os riscos associados ao enfraquecimento do jornalismo local, particularmente em territórios onde a escassez de recursos compromete a produção de informação independente.

Carlos Eugénio, diretor executivo da VISAPRESS

Direitos de autor e remuneração dos conteúdos ganham importância

A utilização de conteúdos jornalísticos pelas plataformas tecnológicas e pelos sistemas de inteligência artificial foi outro dos temas centrais.

Carlos Eugénio defendeu que os direitos de autor são fundamentais para garantir uma remuneração justa aos editores de imprensa.

“O direito de autor é que nos salva”, afirmou o diretor executivo da VISAPRESS, sublinhando que este enquadramento jurídico permite reivindicar o valor económico dos conteúdos produzidos pelos órgãos de comunicação social.

Segundo os dados apresentados, a VISAPRESS representa cerca de 600 publicações e distribui anualmente aproximadamente dois milhões de euros aos editores, através de diferentes mecanismos de compensação e licenciamento.

Carlos Eugénio alertou, contudo, para as dificuldades nas negociações com as grandes plataformas tecnológicas e para a necessidade de reforçar os instrumentos legais que permitam assegurar uma remuneração adequada.

A inteligência artificial acrescenta novos desafios, sobretudo pela utilização de conteúdos jornalísticos no desenvolvimento e funcionamento dos modelos tecnológicos.

James Hewes, consultor estratégico para os media

Novos modelos de negócio passam por conhecer melhor os leitores

A diversificação das receitas e a transformação dos modelos de negócio foram abordadas por James Hewes, que partilhou experiências desenvolvidas no âmbito do programa API Next.

O consultor destacou o potencial dos conteúdos pagos e das estratégias de relacionamento direto com os leitores, particularmente nos órgãos de comunicação social regionais e locais.

Segundo explicou, muitas publicações conhecem apenas uma parte da sua audiência, concentrando-se no número de assinantes em papel e não considerando os leitores que acompanham os seus conteúdos através das redes sociais, newsletters e outras plataformas.

A identificação destes públicos e o conhecimento dos seus interesses podem abrir oportunidades para desenvolver produtos e serviços pagos.

James Hewes destacou ainda as newsletters como um instrumento relevante para reforçar a relação com os leitores, recolher informação sobre as audiências e criar novas fontes de receita.

Mais do que implementar soluções tecnológicas isoladas, defendeu a importância de estabelecer processos de experimentação e aprendizagem que permitam às empresas continuar a inovar de forma autónoma.

Setor reclama condições de concorrência mais equilibradas

Na discussão sobre políticas públicas, os participantes defenderam diferentes formas de intervenção do Estado, convergindo na necessidade de melhorar as condições de funcionamento do setor.

Ricardo Costa sustentou que os apoios públicos devem privilegiar medidas gerais de modernização e transformação tecnológica, evitando mecanismos que possam criar dependências ou favorecer determinados órgãos de comunicação social.

Carlos Rodrigues defendeu a revisão da legislação publicitária, a resolução dos problemas da distribuição da imprensa e a criação de condições mais transparentes para o desenvolvimento de parcerias e projetos entre os media e entidades públicas.

A necessidade de garantir uma remuneração justa pelos conteúdos utilizados em sistemas de inteligência artificial foi igualmente apontada como uma prioridade, incluindo no desenvolvimento do modelo português Amália.

Nuno Francisco chamou a atenção para a importância de assegurar o acesso dos órgãos regionais e locais aos serviços da Agência LUSA, considerando que a informação produzida pela agência representa um recurso relevante para publicações com equipas reduzidas.

O debate evidenciou, assim, que a sustentabilidade do jornalismo português depende de uma combinação de fatores: modelos de gestão economicamente viáveis, capacidade de inovação, valorização dos conteúdos, condições de concorrência equilibradas e preservação da ligação aos leitores.

Uma preocupação transversal às diferentes intervenções foi a necessidade de garantir que a transformação tecnológica não comprometa a existência de informação profissional, independente e plural, tanto a nível nacional como regional e local.