Por Júlio Roldão *

 

 

Uma noite, já não sei quando, sonhei viver num país onde a escolaridade mínima obrigatória era uma licenciatura universitária. Nesse país ninguém ousava dizer que não podíamos ser todos licenciados – ser licenciado até era obrigatório.

Este sonho é tanto mais estranho quanto eu frequentei o ensino liceal privado num tempo em que existia um ensino liceal público e um ensino técnico público – a unificação dos liceus e das escolas técnicas em escolas secundárias aconteceu quando eu já andava na Universidade.

E se a separação entre o ensino liceal e o ensino técnico foi alvo de uma grande contestação logo após o 25 de Abril de 1974, a unificação não foi consensual e ainda hoje há quem diga que não podemos ser todos doutores, ou seja, licenciados.

Conheci uma pessoa, por sinal licenciada, que equiparava uma licenciatura a uma suposta autorização – ser licenciado seria apenas ter licença para aprender sozinho. Esta imagem sempre foi, a meus olhos, muito feliz.

Isto num tempo em que as estatísticas revelavam que só 4% dos filhos de casais da chamada classe trabalhadora conseguiam entrar na Universidade. Por insuficiência dos orçamentos familiares, como se depreende.

Hoje essa percentagem é bastante superior, fruto de uma certa “democratização” no acesso ao Ensino Superior, mas este, entretanto, também perdeu algum peso nomeadamente com o afunilamento dos cursos superiores saídos do Acordo de Bolonha.

Há mais gente nas universidades, mas também há quem suspeite que estejamos a lançar para o mercado ondas e ondas de licenciados que caminham para uma espécie de proletariado intelectual, semi-analfabeto, tanto no aspecto técnico e cultural como no aspecto cívico.

Haverá mais escolaridade, mas isso não significa, realmente, que haja uma maior escolarização autêntica. Está por conseguir a escola inclusiva, uma escola que promova estratégias que visem a igualdade de oportunidades de sucesso, muito mais do que as igualdades de oportunidades de acesso.

A igualdade de oportunidades de sucesso é coisa de países como aquele onde eu, há tempos, sonhei viver. O tal em que a escolaridade mínima obrigatória é uma licenciatura universitária e onde ninguém consegue dizer que não podemos ser todos doutores.

Aí, ser doutor, ser licenciado, é apenas ter licença para aprender sozinho. É ter uma base cultural e humanista capaz de valorizar qualquer actividade humana útil e necessária, sem preconceito. É ser capaz de melhor identificar a mentira e a falsidade

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.

*Jornalista desde 1977