Junho 2022

O sonho

2022-06-07T11:28:07+00:00

O sonho é, de facto, uma constante da vida, ou mais precisamente dos seres vivos. Demócrito sonhou com o átomo. Mas foi Aristóteles, que não possuía equipamentos de ressonância magnética, o primeiro a observar que até insectos, como as abelhas, sonham. Que sonham, quiçá com coreografias, desenhos de néctar, no palco hertziano de uma passarola solar. Mas sonham! Freud, que não sabia como Damásio da natureza molecular, fisiológica e anatómica das emoções, pressentiu nos sonhos os desejos por interpretar da terra do subconsciente. Desejos de terras distantes, de superfícies lunares. Aserinsky e Kleitman, que não sabiam bolinar, encontraram ilhas de sonho no mar do sono. Designaram estas janelas interiores por sono R.E.M. (Rapid Eye Movement). Por elas, a actividade neuronal expressa nos registos electrofisiológicos, é semelhante à do estado de vigília, quando estamos acordados! Mas por essas janelas cogitamos sem nos movermos. Mas o sonho, esse avança por essas ilhas [...]

O sonho2022-06-07T11:28:07+00:00

“A dor da gente”

2022-06-06T08:39:06+00:00

Por Júlio Roldão *   Em 1975, Chico Buarque e Maria Bethânia lançaram uma canção - "Notícia de Jornal" - que é uma crítica ao jornalismo e põe em causa a verdade que passa na informação jornalística. Para quem não a conhece aqui vão os versos dessa notícia de jornal.   "Tentou contra a existência // Num humilde barracão. // Joana de tal, por causa de um tal João. // // Depois de medicada, // Retirou-se pro seu lar. // Aí a notícia carece de exatidão, // O lar não mais existe // Ninguém volta ao que acabou // Joana é mais uma mulata triste que errou.// // Errou na dose // Errou no amor // Joana errou de João // Ninguém notou // Ninguém morou na dor que era o seu mal // A dor da gente não sai no jornal."   Esta "notícia de jornal", escrita por Chico [...]

“A dor da gente”2022-06-06T08:39:06+00:00

As agendas mediáticas

2022-06-01T12:28:18+00:00

Por Júlio Roldão *   O permanente e difícil combate à iliteracia mediática, à manipulação jornalística e à desinformação é uma tarefa que visa contribuir para uma sociedade mais livre, informada e democrática e para credibilizar a Imprensa muito prejudicada por poderosos meios de comunicação que exercem, ilicitamente, uma actividade que pretende passar por jornalismo. O exercício ilícito do jornalismo é uma potencial pandemia tão difícil de erradicar quão difícil é identificar tal exercício, muitas vezes disfarçado de bom jornalismo e ou, por exemplo, de uma espécie de iniciativa cidadã apresentada como consequência inevitável do progresso que as novas tecnologias da informação proporcionam. A facilidade com que hoje é possível distribuir textos escritos, imagens e sons (estes dois últimos até em tempo real) favorece esta explosão comunicacional que nos envolve em permanência e favorece até o aparecimento de informação não jornalística apresentada como jornalística. O jornalismo é uma actividade que [...]

As agendas mediáticas2022-06-01T12:28:18+00:00

Maio 2022

Leonardo da Vinci, o cientista

2022-05-26T17:55:59+00:00

A “Mona Lisa” é uma das pinturas mais reconhecidas no mundo. O seu autor, Leonardo da Vinci (1452-1519), era bem mais do que um pintor. A sua curiosidade insaciável e a sua forma de ver o mundo ficou registada nos seus inúmeros cadernos que revelam o esplendor da sua mente brilhante. Os seus desenhos incluem potenciais formas de voar, passando por máquinas de guerra e até mapas de cidades pormenorizados e inovadores. O florentino foi, portanto, a definição do eclético homem do renascimento. Como era verdadeiramente livre teve a coragem e a capacidade de estudar o corpo humano. Através de disseções minuciosas e demoradas - recordemos que não havia na época forma de conservar os cadáveres - Leonardo foi precursor no estudo científico da anatomia, base para a evolução da medicina. É de salientar a sua capacidade didática de representar, por camadas, os músculos e as articulações. O seu estudo [...]

Leonardo da Vinci, o cientista2022-05-26T17:55:59+00:00

O prestígio da Imprensa

2022-05-14T09:29:20+00:00

Por Júlio Roldão*   Recupero uma carta que escrevi ao meu amigo Francisco Mangas, director da Gazeta Literária da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, quando comecei a preocupar-me com os rumores que dão como certo que o Jornal de Notícias irá ceder a uma qualquer empresa hoteleira o emblemático edifício da portuense Rua de Gonçalo Cristóvão onde a Redacção do jornal ainda funciona. Edifício construído de raiz para albergar um jornal, quando os jornais eram pensados, escritos e impressos no mesmo espaço, o que implicava instalações também adequadas a uma rotativa de grandes dimensões como era a última grande máquina impressora que o Jornal de Notícias adquiriu, a portuense Torre JN corre sérios riscos de virar hotel. Esta transformação encaixa naquelas opções empresariais que fizeram com que os jornais deixassem de ter tipografia e distribuição próprias e fossem perdendo peso a pretexto de eliminar gorduras. Recordo, [...]

O prestígio da Imprensa2022-05-14T09:29:20+00:00

Informação oculta

2022-05-05T08:14:53+00:00

Por Júlio Roldão*     Nas Ciências da Educação fala-se, muitas vezes, de currículos ocultos, conceito que se entenderá bem reflectindo numa opinião do conhecido pedagogo Miguel A. Zabalza, para quem se aprende mais nos intervalos das aulas do que nas aulas. Esta aprendizagem dos intervalos das aulas é um dos clássicos pilares desse universo dos currículos ocultos, um universo cheio de espaços informais que formatam jovens e adultos, transversalmente. Também na comunicação há zonas que, por analogia, poderíamos classificar de ocultas, embora, em boa verdade, não o sejam – são apenas zonas dos discursos informativos onde as informações passam despercebidas como dados adquiridos e inquestionáveis. Acontece que tais informações podem ser, e às vezes são, discutíveis ou até informações não confirmadas, com a agravante de poderem passar por verdades absolutas e inquestionáveis e, nesta circunstância, por verdades que se instalam sem dificuldade. Se isto acontece (e já tem acontecido) [...]

Informação oculta2022-05-05T08:14:53+00:00

Abril 2022

Ajustando contas

2022-04-28T16:35:11+00:00

Por Júlio Roldão*   Vivemos um tempo de traiçoeiros ajustes de contas e a desinformação instalada gera ambientes favoráveis a que tais indignidades pareçam virtudes. Uma desinformação muitas vezes consolidada pela falta de pequenos procedimentos que parecem pouco importantes mas potenciam a mentira. Quem e quando escreveu (ou disse) isso? Esta simples pergunta, este procedimento deve ser quase automático na hora de consumir informação cuja autoria e data da notícia estão omissas. Muitos de nós fomos já aliciados para a leitura de notícias que julgamos ser novidade mas são apenas repetições de notícias ou de mentiras de há anos apresentadas como se fossem do dia. Este tempo de disseminação desinformativa é propício ao aparecimento, nomeadamente nas mais modernas plataformas digitais de comunicação, de uma espécie de novo riquismo intelectual que se afirma no sistemático achincalhamento e humilhação dos outros, comportamentos típicos em ajustes de contas. Quando as liberdades políticas não [...]

Ajustando contas2022-04-28T16:35:11+00:00

A HISTÓRIA: um remédio com prescrição

2022-04-18T12:28:18+00:00

A consideração da História enquanto lugar crítico, reflexivo, de interiorização do passado para que se critique também o presente e se abra, simultaneamente, brecha para futuro, como o cria Marc Bloch, tem vindo a deteriorar-se. A disciplina de História sofreu, desde alguns anos, uma degradação evidente: aferível pelo decréscimo de tempo lectivo que se lhe dedica nos currículos escolares; mas também pela centralidade que se observa do serviço noticioso, que congrega forças extremamente poderosas na actualidade, cadenciando os dias, como aliás já Marc Augé o viu quanto ao papel central da televisão, por exemplo, que diz ter substituído a função dos campanários. A História, apesar de lhe vir sendo reivindicado um estatuto sobremaneira científico, tem uma profunda ligação à imaginação, por um lado, e, por outro, ao conceito de acontecimento, avultando as palavras como compromisso entre imagem e facto. Sendo o estudo dos acontecimentos e a enunciação de factos dados [...]

A HISTÓRIA: um remédio com prescrição2022-04-18T12:28:18+00:00

Incertezas instaladas

2022-04-15T12:26:54+00:00

Por Júlio Roldão*   Michele Serra, escritor e jornalista que mantém, há anos, no jornal italiano la Repubblica, um espaço de crónica com um público fiel, dedicou uma das crónicas mais recentes ao cancelamento da apresentação, na italiana cidade de Lonigo, do bailado "Lago dos Cisnes", pelo Corpo Nacional de Baile da Ucrânia, à última da hora instigado pela Ópera Nacional da Ucrânia e pelo Ministério da Cultura de Kiev, a retirar aquele bailado do reportório considerando que o "Lago dos Cisnes" é um bailado da autoria do compositor russo Tchaikovsky. Serra defendeu, nessa crónica, que impedir os bailarinos ucranianos de dançar o "Lago dos Cisnes" pelo facto deste bailado, escrito há um século e meio, ser de um compositor russo, será sinal de que Putin está a vencer a guerra desencadeada na Ucrânia. Mesmo considerando a justificação oficial de tal censura numa reacção aos recentes e graves factos ocorridos [...]

Incertezas instaladas2022-04-15T12:26:54+00:00

Compromisso com a verdade

2022-04-13T13:27:20+00:00

Por Júlio Roldão*   A paixão pelo jornalismo, esta apaixonante profissão que reporta a vida que passa, sempre a confirmar os factos em fontes independentes e a apresentar essa vida sob vários olhares possíveis, este difícil modo de vida tem de continuar a preocupar-se em fazer com que o respectivo exercício poupe humilhação aos outros. Ouvi esta lição num testemunho do meu primeiro chefe, o jornalista Penalva Rocha, testemunho que nunca esqueci e que ainda hoje me comove. Alguém, que acabara de cumprir uma longa pena de prisão, entrou um dia na Redação do Diário de Coimbra com o amarelecido recorte da notícia da condenação que sofrera querendo saber quem tinha sido o autor de tal notícia. Embora parecesse assustador, o homem libertado queria apenas agradecer ao jornalista a forma como foi tratado na notícia, revelando, a propósito, que essa “local” o tinha ajudado a aguentar a pena que ele [...]

Compromisso com a verdade2022-04-13T13:27:20+00:00
Go to Top