Junho 2022

A tempestade perfeita

2022-06-27T08:27:51+00:00

Por Júlio Roldão *     Um voo de Lisboa para Varadero, uma das rotas de uma nova companhia aérea a operar em Portugal – a World2Fly –, foi obrigado, há dias, a regressar ao Aeroporto Humberto Delgado, de onde saíra, face à dificuldade em fazer recolher o trem de aterragem após a descolagem. Com os tanques abastecidos para uma viagem de dez horas, a aeronave teve de gastar combustível às voltas sobre uma zona da Grande Lisboa, antes de aterrar, procedimento técnico necessário para atingir o peso máximo aconselhável a uma aterragem normal. Esta ocorrência, mais vulgar do que se imagina, ganhou contornos de uma emergência, potencialmente grave, com direito a emissões especiais de vários canais portugueses de televisão, entre canais por cabo e canais de sinal aberto. Com pilotos em estúdio a comentar a situação do voo de Lisboa para Varadero e equipas de exterior no interior do [...]

A tempestade perfeita2022-06-27T08:27:51+00:00

Caçar cachalotes, uma estória na história

2022-06-24T14:55:07+00:00

Escreveu Herman Melville, em 1851, uma estória dentro da história. Romanceada, a perseguição do Capitão Ahab ao cachalote albino Moby Dick impressionou o público da altura pelo seu final dramático e glorioso para a besta marinha. Entre a ficção, muito sobre a caça de cetáceos se pode aprender neste romance, já que Melville havia embarcado em navios baleeiros e sido, ele próprio, arpoador. Durante todo o século XIX, estes navios, de várias nacionalidades, faziam longas viagens transoceânicas capturando os grandes cetáceos e processando-os a bordo até voltarem ao porto de origem. O final do século XIX representa um marco assinalável na indústria baleeira mundial, com uma evolução de técnica que iria modificar, abrupta e irreversivelmente, não só a atividade como as populações naturais das principais espécies capturadas. A mudança da técnica americana para a baleação norueguesa, com a introdução dos baleeiros a vapor e a invenção do arpão explosivo, aliada [...]

Caçar cachalotes, uma estória na história2022-06-24T14:55:07+00:00

Técnica e ética

2022-06-14T10:41:04+00:00

Por Júlio Roldão*   Quem, o quê, quando e onde continua uma fórmula importante para conferir uma notícia. E não podemos descurar nenhum destes elementos básicos das notícias, em especial nestes tempos de desinfomação. Regresso a estas noções básicas do jornalismo relendo o "Manual de Jornalismo" de Ricardo Cardet que a Organização Internacional de Jornalistas publicou, em Castelhano e que o jornalista Armando Pereira da Silva traduziu para Português. Esta versão em língua portuguesa é um dos meus primeiros livros sobre jornalismo e foi por mim adquirida, em Junho de 1977, mês em que foi editada pela Caminho e ano em que iniciei a minha actividade de jornalista profissional. Acresce ser uma versão traduzida e prefaciada por Armando Pereira da Silva (1940-2022), jornalista português de referência que recentemente nos deixou, deixando obra escrita, no jornalismo e na literatura. O tradutor para Português cita no prefácio ao manual que traduziu uma [...]

Técnica e ética2022-06-14T10:41:04+00:00

Ataque ao mercado

2022-06-09T08:23:09+00:00

  Por Júlio Roldão*   Deixei de ter um jornal em papel que me chegava a casa, de manhãzinha, por um estafeta que circulava numa mota relativamente potente. Já reconhecia o barulho da mota a anunciar, à minha porta, que o jornal estava prestes a ser colocado na minha caixa do correio provocando um som, agradável, também reconhecível. Deixei de assinar a edição em papel daquele jornal (que minorou o isolamento sentido nos confinamentos mais apertados da pandemia da Covid19) quando o jornal, um título estrangeiro de referência mundial, deixou de ser entregue ao domicílio no próprio dia. Agora, quando acordo e vou ver as horas no telemóvel, caem os títulos gordos das principais notícias das minhas assinaturas digitais no próprio telemóvel. Há dias, um dos primeiros títulos a cair falava num "ataque ao mercado". Fui ler a correr a notícia correspondente, convencido de que seria um ataque com armas [...]

Ataque ao mercado2022-06-09T08:23:09+00:00

O sonho

2022-06-07T11:28:07+00:00

O sonho é, de facto, uma constante da vida, ou mais precisamente dos seres vivos. Demócrito sonhou com o átomo. Mas foi Aristóteles, que não possuía equipamentos de ressonância magnética, o primeiro a observar que até insectos, como as abelhas, sonham. Que sonham, quiçá com coreografias, desenhos de néctar, no palco hertziano de uma passarola solar. Mas sonham! Freud, que não sabia como Damásio da natureza molecular, fisiológica e anatómica das emoções, pressentiu nos sonhos os desejos por interpretar da terra do subconsciente. Desejos de terras distantes, de superfícies lunares. Aserinsky e Kleitman, que não sabiam bolinar, encontraram ilhas de sonho no mar do sono. Designaram estas janelas interiores por sono R.E.M. (Rapid Eye Movement). Por elas, a actividade neuronal expressa nos registos electrofisiológicos, é semelhante à do estado de vigília, quando estamos acordados! Mas por essas janelas cogitamos sem nos movermos. Mas o sonho, esse avança por essas ilhas [...]

O sonho2022-06-07T11:28:07+00:00

“A dor da gente”

2022-06-06T08:39:06+00:00

Por Júlio Roldão *   Em 1975, Chico Buarque e Maria Bethânia lançaram uma canção - "Notícia de Jornal" - que é uma crítica ao jornalismo e põe em causa a verdade que passa na informação jornalística. Para quem não a conhece aqui vão os versos dessa notícia de jornal.   "Tentou contra a existência // Num humilde barracão. // Joana de tal, por causa de um tal João. // // Depois de medicada, // Retirou-se pro seu lar. // Aí a notícia carece de exatidão, // O lar não mais existe // Ninguém volta ao que acabou // Joana é mais uma mulata triste que errou.// // Errou na dose // Errou no amor // Joana errou de João // Ninguém notou // Ninguém morou na dor que era o seu mal // A dor da gente não sai no jornal."   Esta "notícia de jornal", escrita por Chico [...]

“A dor da gente”2022-06-06T08:39:06+00:00

As agendas mediáticas

2022-06-01T12:28:18+00:00

Por Júlio Roldão *   O permanente e difícil combate à iliteracia mediática, à manipulação jornalística e à desinformação é uma tarefa que visa contribuir para uma sociedade mais livre, informada e democrática e para credibilizar a Imprensa muito prejudicada por poderosos meios de comunicação que exercem, ilicitamente, uma actividade que pretende passar por jornalismo. O exercício ilícito do jornalismo é uma potencial pandemia tão difícil de erradicar quão difícil é identificar tal exercício, muitas vezes disfarçado de bom jornalismo e ou, por exemplo, de uma espécie de iniciativa cidadã apresentada como consequência inevitável do progresso que as novas tecnologias da informação proporcionam. A facilidade com que hoje é possível distribuir textos escritos, imagens e sons (estes dois últimos até em tempo real) favorece esta explosão comunicacional que nos envolve em permanência e favorece até o aparecimento de informação não jornalística apresentada como jornalística. O jornalismo é uma actividade que [...]

As agendas mediáticas2022-06-01T12:28:18+00:00

Maio 2022

Leonardo da Vinci, o cientista

2022-05-26T17:55:59+00:00

A “Mona Lisa” é uma das pinturas mais reconhecidas no mundo. O seu autor, Leonardo da Vinci (1452-1519), era bem mais do que um pintor. A sua curiosidade insaciável e a sua forma de ver o mundo ficou registada nos seus inúmeros cadernos que revelam o esplendor da sua mente brilhante. Os seus desenhos incluem potenciais formas de voar, passando por máquinas de guerra e até mapas de cidades pormenorizados e inovadores. O florentino foi, portanto, a definição do eclético homem do renascimento. Como era verdadeiramente livre teve a coragem e a capacidade de estudar o corpo humano. Através de disseções minuciosas e demoradas - recordemos que não havia na época forma de conservar os cadáveres - Leonardo foi precursor no estudo científico da anatomia, base para a evolução da medicina. É de salientar a sua capacidade didática de representar, por camadas, os músculos e as articulações. O seu estudo [...]

Leonardo da Vinci, o cientista2022-05-26T17:55:59+00:00

O prestígio da Imprensa

2022-05-14T09:29:20+00:00

Por Júlio Roldão*   Recupero uma carta que escrevi ao meu amigo Francisco Mangas, director da Gazeta Literária da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, quando comecei a preocupar-me com os rumores que dão como certo que o Jornal de Notícias irá ceder a uma qualquer empresa hoteleira o emblemático edifício da portuense Rua de Gonçalo Cristóvão onde a Redacção do jornal ainda funciona. Edifício construído de raiz para albergar um jornal, quando os jornais eram pensados, escritos e impressos no mesmo espaço, o que implicava instalações também adequadas a uma rotativa de grandes dimensões como era a última grande máquina impressora que o Jornal de Notícias adquiriu, a portuense Torre JN corre sérios riscos de virar hotel. Esta transformação encaixa naquelas opções empresariais que fizeram com que os jornais deixassem de ter tipografia e distribuição próprias e fossem perdendo peso a pretexto de eliminar gorduras. Recordo, [...]

O prestígio da Imprensa2022-05-14T09:29:20+00:00

Informação oculta

2022-05-05T08:14:53+00:00

Por Júlio Roldão*     Nas Ciências da Educação fala-se, muitas vezes, de currículos ocultos, conceito que se entenderá bem reflectindo numa opinião do conhecido pedagogo Miguel A. Zabalza, para quem se aprende mais nos intervalos das aulas do que nas aulas. Esta aprendizagem dos intervalos das aulas é um dos clássicos pilares desse universo dos currículos ocultos, um universo cheio de espaços informais que formatam jovens e adultos, transversalmente. Também na comunicação há zonas que, por analogia, poderíamos classificar de ocultas, embora, em boa verdade, não o sejam – são apenas zonas dos discursos informativos onde as informações passam despercebidas como dados adquiridos e inquestionáveis. Acontece que tais informações podem ser, e às vezes são, discutíveis ou até informações não confirmadas, com a agravante de poderem passar por verdades absolutas e inquestionáveis e, nesta circunstância, por verdades que se instalam sem dificuldade. Se isto acontece (e já tem acontecido) [...]

Informação oculta2022-05-05T08:14:53+00:00
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