Por Júlio Roldão*

 

Recupero uma carta que escrevi ao meu amigo Francisco Mangas, director da Gazeta Literária da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, quando comecei a preocupar-me com os rumores que dão como certo que o Jornal de Notícias irá ceder a uma qualquer empresa hoteleira o emblemático edifício da portuense Rua de Gonçalo Cristóvão onde a Redacção do jornal ainda funciona.

Edifício construído de raiz para albergar um jornal, quando os jornais eram pensados, escritos e impressos no mesmo espaço, o que implicava instalações também adequadas a uma rotativa de grandes dimensões como era a última grande máquina impressora que o Jornal de Notícias adquiriu, a portuense Torre JN corre sérios riscos de virar hotel.

Esta transformação encaixa naquelas opções empresariais que fizeram com que os jornais deixassem de ter tipografia e distribuição próprias e fossem perdendo peso a pretexto de eliminar gorduras. Recordo, como recordei na carta que enviei a Francisco Mangas, que os outros dois grandes diários portuenses – O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro – cederam as respectivas instalações históricas para outros negócios e já desapareceram.

O “Janeiro” foi um dos grandes jornais diários do país. Tão grande, recordei na Primavera de 2018, que em Julho de 1950 enviou o jornalista Albano da Rocha Pato a Mainz (Mogúncia) a acompanhar o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) em viagem à Alemanha para participar na Primeira Delfíada, um festival de teatro dedicado à dramaturgia mais clássica, onde o TEUC representou Gil Vicente.

Quantos jornais em Portugal – continuo a perguntar – enviam jornalistas ao estrangeiro a acompanhar uma digressão de um grupo de teatro português? Albano da Rocha Pato, cujo nome vai entrar na toponímia de Coimbra, acompanhou o TEUC à cidade de Mainz e assinou reportagens sobre o festival de teatro, mas também sobre a reconstrução da cidade de Mainz, com muitos dos quarteirões que foram bombardeados durante a II Grande Guerra então ainda em escombros.

Nos anos 50 do século passado, havia jornais que assumiam o papel que se dá hoje aos historiadores, produzindo documentos verdadeiramente históricos numa permanente afirmação de prestígio da Imprensa escrita, sempre ancorada na qualidade e no prestígio dos respectivos jornalistas. Prestígio que importa hoje, neste tempo de desinformação, recuperar e consolidar.

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.

 

*Jornalista desde 1977