“Espelho meu, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?” Todos nos lembramos tão bem desta famosa frase do conto da Branca de Neve. Porquê? Talvez porque se mantenha atual, embora nos dias de hoje o espelho tenha sido substituído pelas redes sociais.

A Rainha Má precisava de afirmações constantes da sua beleza e grandeza, e nós, o que nós queremos ver refletido no espelho?

Beleza física, um corpo perfeitamente disciplinado e, sobretudo SEM IDADE ou com uma idade somente, JOVEM. Isto a ser obtido a todo o custo, nem que seja apenas uma ilusão de parecer como tal. Mas atenção que é um beco com uma saída só, pois a natureza cumpre o seu ciclo e reclama os seus direitos inquestionáveis como as antropológicas fases da vida, desde o início até ao fim.

O processo de envelhecimento tão indesejado dentro da nossa cultura tem poder. O poder dos cosméticos, do botox, das cirurgias plásticas, das dietas maravilhosas e dos treinos severos. Citando a famosa Coco Chanel, não há nada que faça uma mulher parecer mais velha do que a tentativa desesperada de parecer nova. O tempo altera os traços da cara, distorce as articulações, e no mar de pele estende redes de rugas. As rugas são odiadas, mas na verdade encontram-se nelas os tesouros da sabedoria humana. É um presente que a natureza nos deixa em troca da aparência física.

Para além da aparência física estamos constantemente necessitados de mostrar que somos felizes. Será porque o meio onde estamos inseridos o está a exigir de nós? Na televisão somos bombardeados com caras artificialmente felizes, na publicidade as crianças saltam de alegria, as famílias são perfeitas e bonitas, ninguém parece ter problemas e quando chega o Natal, a única visão que se assiste é a uma mesa farta recheada de amor e alegria.

Será esta a razão por que nas redes sociais se publicam tantas fotografias parecidas? Quando chega Novembro e Dezembro na internet aparecem centenas de fotos de árvores de Natal, no dia dos namorados surgem fotos de casais apaixonados e nas férias abundam as fotos de famílias sorridentes à força. Fotos que são uma reflexão daquilo que nos é “exigido” através dos média e das poderosas redes sociais.

Os “Likes” fazem hoje o papel do tal espelho que conhecemos bem da antiga fábula. Nesta realidade das redes sociais nós próprios podemos exercer a função do espelho de outrem, onde podemos exprimir sentimentos, fazer julgamentos e aliviar as nossas frustrações através de cliques no “Like”, ou não-cliques que por vezes significam mais do que as próprias palavras. Sobretudo nesta nova era onde se assiste a uma deficiente comunicação verbal e as emoções são demonstradas através de “emojis” e “stickers”.

O ser humano tem tendência para distorcer a realidade, escondendo os seus pontos negativos e amplificando as virtudes, todavia não existe nada melhor do que a honestidade para com a nossa natureza. Era bom fazer as pazes com a verdade e acreditar na vida e na plenitude das suas fases.

Estamos entrelaçados em vários tipos de redes, balançando entre quem somos verdadeiramente e quem gostaríamos de ser. Cada um de nós é especial, único e tem um papel a desempenhar, por isso vale a pena fazer o esforço de nos encontrarmos a nós próprios, mas do lado verdadeiro do espelho.

 

Anna Kosmider Leal (antropóloga)

 

Anna Kosmider Leal é antropóloga, linguista e docente no ISCE Douro, em Penafiel.

Também foi fundadora da plataforma de ensino de línguas estrangeiras SpeakingParrot.net .

Em 2004 licenciou-se em Etnolinguística, especialização em línguas Inglesa/Portuguesa no departamento de Neofilologia da Universidade Adam Mickiewicz em Poznan. Em 2005 fez Pós-Graduação em Administração Europeia na mesma Universidade.

Em 2014 concluiu o Doutoramento em Ciências Sociais – Especialidade em Antropologia – na Universidade Fernando Pessoa no Porto, Portugal. Desde 2000 trabalha como leitora de línguas estrangeiras e desde 2005 como docente do ensino superior e tradutora.