Por Júlio Roldão *

 

O permanente e difícil combate à iliteracia mediática, à manipulação jornalística e à desinformação é uma tarefa que visa contribuir para uma sociedade mais livre, informada e democrática e para credibilizar a Imprensa muito prejudicada por poderosos meios de comunicação que exercem, ilicitamente, uma actividade que pretende passar por jornalismo.

O exercício ilícito do jornalismo é uma potencial pandemia tão difícil de erradicar quão difícil é identificar tal exercício, muitas vezes disfarçado de bom jornalismo e ou, por exemplo, de uma espécie de iniciativa cidadã apresentada como consequência inevitável do progresso que as novas tecnologias da informação proporcionam.

A facilidade com que hoje é possível distribuir textos escritos, imagens e sons (estes dois últimos até em tempo real) favorece esta explosão comunicacional que nos envolve em permanência e favorece até o aparecimento de informação não jornalística apresentada como jornalística.

O jornalismo é uma actividade que difunde novidades verdadeiras de interesse colectivo para a comunidade a que se destina sob várias formas jornalísticas de que a notícia, a reportagem e as entrevistas serão as mais evidentes. Neste desenho desta complexa profissão, um dos elementos diferenciadores chave reside no interesse colectivo.

A mentira não é o único problema que pode contaminar o jornalismo. O interesse particular, por oposição ao colectivo, é um aspecto também fundamental nesta matéria tão problemática. É o interesse colectivo da informação que deve determinar a respectiva entrada na agenda mediática. Este é aliás um dos pontos que justifica que o exercício do jornalismo seja tão escrutinado.

Não é por acaso que muitas informações comerciais tentam fazer-se passar, tanto quanto a legislação o permita, por informações jornalísticas. As informações comerciais são legítimas, mas são essencialmente informações que interessam a quem as promove e não a um universo colectivo – como, por exemplo, o público de uma publicação jornalística.

Na clara e rigorosa separação entre o que é propaganda (comercial e não só) e o que é jornalismo, está o limite do Poder de quem realmente tenha capacidade de determinar o que entra ou não entra nas chamadas agendas mediáticas.

 

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.

*Jornalista desde 1977