Por Júlio Roldão*

 

Em todas as tábuas de leis, incluindo as que Moisés nos mostrou ou as dos reeditados Dez Mandamentos da Igreja Católica, em todas as normas que a vida colectiva aconselha ou impõe, a verdade é imperativa.

Reflecti sobre isto há dias, quando fui despedir-me de um companheiro desta aventura dos jornais e descobri, no Adro da Paróquia de Oliveira do Douro, um jardim de dez oliveiras, cada uma a enquadrar um dos dez mandamentos já citados.

Nesta lista, o mandamento que impõe a verdade é o oitavo e sintetiza-se com a expressão “não levantarás falsos testemunhos”. Noutras tábuas figura noutra posição, mas em todas elas, até no Código Deontológico dos Jornalistas, a verdade é imperativa.

No Código Deontológico dos jornalistas é logo a primeira norma e diz que o jornalista “deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade”, acrescentando que “os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso” e que “a distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”.

Em todas as tábuas de leis, a verdade é imperativa e condição indispensável para podermos viver em paz e em harmonia com os outros. Esta norma também está presente na expressão latina de Ulpiano (150-223) que estabelece os três preceitos do Direito Romano: “honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere”.

Quem estudou Direito em Coimbra e apanhou Sebastião Cruz a reger a cadeira do Direito Romano lembrar-se-á bem destes três preceitos de Ulpiano (“viver honestamente, não lesar a outrem, dar a cada um o que é seu”), base comum a muitos edifícios jurídicos, incluindo o nosso. O Professor Sebastião Cruz exigia a citação, em latim, desses princípios e pela ordem aqui referida.

Neles está implícita a verdade como valor inalienável da convivência humana num quadro civilizacional desejável, infelizmente nem sempre respeitado e seguido, nestes tempos que alguns já classificam como sendo tempos da “pós verdade”, com todas as más consequências e o correspondente retrocesso que isto implica.

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.

*Jornalista desde 1977