Por Júlio Roldão *

 

Em 1975, Chico Buarque e Maria Bethânia lançaram uma canção – “Notícia de Jornal” – que é uma crítica ao jornalismo e põe em causa a verdade que passa na informação jornalística. Para quem não a conhece aqui vão os versos dessa notícia de jornal.

 

“Tentou contra a existência // Num humilde barracão. // Joana de tal, por causa de um tal João. // // Depois de medicada, // Retirou-se pro seu lar. // Aí a notícia carece de exatidão, // O lar não mais existe // Ninguém volta ao que acabou // Joana é mais uma mulata triste que errou.// // Errou na dose // Errou no amor // Joana errou de João // Ninguém notou // Ninguém morou na dor que era o seu mal //

A dor da gente não sai no jornal.”

 

Esta “notícia de jornal”, escrita por Chico Buarque e por Maria Bethânia, critica alguma superficialidade característica de certas notícias, notícias que não conseguem transmitir o que realmente estará na base de um determinado acontecimento, no caso de uma tentativa frustrada de suicídio.

Hoje, o fenómeno da desinformação vai muito para lá da superficialidade informativa denunciada pelos dois grandes cantores e compositores brasileiros quando cantam que “a dor da gente não sai no jornal”. Hoje a desinformação inventa dores que não existem e faz com que essas dores toldem a nossa compreensão da realidade.

Hoje também não temos quem componha uma canção de sucesso a defender o bom jornalismo. Hoje o que está do outro lado do bom jornalismo não é só uma informação insuficiente. É principalmente a mentira, a desinformação, os boatos encadeados para manipular sensibilidades e mais facilmente “impor” opiniões e comportamentos.

Hoje, a dor da gente sai no jornal, e nas rádios, e nas televisões e redes sociais. Mas também sai, muitas vezes, distorcida, ampliada, manipulada. Desenhada à medida dos interesses, no mínimo ilegítimos, que serve. É muito mais difícil combater hoje a mentira pois há até quem chame à mentira pós verdade.

Mas hoje como ontem a informação rigorosa e correcta é fundamental para consolidar os Estados de Direito democráticos em que queremos viver numa inclusão o mais alargada possível com todos os outros. É isto que realmente pretendemos quando combatemos a desinformação instalada e, infelizmente, promovida com meios quase inesgotáveis.

 

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.

*Jornalista desde 1977.