Como é que Santa Cecília, a padroeira dos músicos porque se diz que cantou a Deus aquando da sua morte em pleno Império Romano, nos pode inspirar agora?

 

“O Martírio de Santa Cecília” por Stefano Maderno, escultor precoce e sensível, chega-nos dos perdidos anos de 1600 e é uma obra admirável por diversas razões: pela técnica irrepreensível, pela expressividade estonteante, pela sensação de abandono infinito, por qualquer coisa de, quase, indizível, mas que se aloja em nós de forma, diria, abrupta e implode na garganta. No entanto, tal como nos diz Philippe Lejeune a propósito dos autobiógrafos serem as igrejas dos indivíduos, as “igrejas, antes de figurarem nos guias turísticos ou em teses de história da arte, serviram, e continuam a servir, para reunir os crentes para rezar a Deus. A estrutura delas está ligada à função que cumprem. Põe-se maior ou menor cuidado e tempo na sua construção. Há igrejinhas muito simples no campo onde se reza muito bem, e é o essencial. Há catedrais gigantescas e muito elaboradas que agradam mais ou menos conforme as épocas.” Pelo que “O Martírio de Santa Cecília”, para além de continuar a testemunhar a irrepreensibilidade do escultor Stefano Maderno, evoca outra coisa, a saber: a fé e um abismo identitário.

A questão é actual, já que vai intersectar a virulência em torno do património, da identidade e da vontade de verdade. Uma parte significativa da reflexão que as “estátuas” obrigam a perseguir relaciona-se, pois, com a legitimidade das heranças patrimoniais; com a imperiosa necessidade de um Si-colectivo provido de uma auto-imagem validada no, e pelo, presente; e com a denúncia das máscaras que turvam a cristalina transparência de um sujeito capaz de percorrer-se dos pés à nuca. É uma questão complexa, que exige esforço e tempo, e companhia, pelo que o que aqui deixo como proposta é um conjunto de ideias ordenadoras talvez úteis para adensar esta reflexão. Primeiro: não acredito que se possa trazer o passado como foi, mas sim como lhe acedemos a partir de um agora; o que não nos permite, todavia, conceber Stefano Maderno como pós-duchampiano, por exemplo, porque efectivamente Marcel Duchamp espetou um espinho na arte que viria a designar-se por “contemporânea” e que é aquela a desacreditar a obra de arte e, com tal, a parodiar-se continuamente. O escultor de “O Martírio de Santa Cecília” demonstra fé na sua imagem.

Segundo: um dos sintomas passível de ser detectado na época em que permanecemos centra-se na interioridade, ou seja, e desde que a Europa iniciou as viagens de circum-navegação, na inexistência de pedaço de terra ocultado, não cartografado, desconhecido, passível de dar-se como exterior de tal interioridade. Tal circunstância induz à profundidade, seja ela aquosa – nos mares antes navegados; seja ela térrea – até aos magmas do planeta; seja ela psíquica – a das camadas humanas antes de relance olhadas, e que agora são sondadas à lupa. Terceiro: decorre da profundidade aludida, e relaciona-se com uma vontade, portanto, de verdade, de um frente a frente consigo mesmo, e que traz, tanto o passado, como as possibilidades todas passíveis de actualização. Não será por acaso, neste entorno que acabo de delinear, que se imponham actualmente as circunstâncias de reiterada nudez: seja as dos seios em certos grupos feministas; seja na performance artística, com as mulheres e as pessoas transgénero a aqui ressaltarem. Assim, a virulência dirigida às “estátuas” está também ela relacionada com uma necessidade de nudez, agora no âmbito psíquico colectivo: esgravatando as camadas da história, retirando os vernizes narrativos, e procurando desesperadamente a verdade, hoje, como se se buscasse um grau zero da História.

Todavia, assim como não há um grau zero da percepção, também não existe um grau zero da História. Devia servir-nos de aviso que ninguém, do mais rico ao mais pobre, seja mulher ou homem, do Sul ou do Norte, de Este a Oeste, saiba quando nasce: somos, sem qualquer distinção, lançados ao Mundo em data que não nos é anunciada, embora, como Walter Benjamin refere, sejamos esperado/as na Terra. Entre o desconhecimento do nosso nascimento, a que cabe também atribuirmos um dia sentido, e a forma como somos acolhido/as, instala-se um segredo que deveremos saber alimentar, preservar, defender, nutrir. A Santa Cecília de Stefano Maderno oculta o rosto, tanto porque permanece numa posição de recolhimento, como porque se envolve de um panejamento delicado, a chamar a atenção para as velaturas da própria identidade. Estas velaturas não são máscaras: são discurso.

 

 

Cláudia Ferreira

 

Cláudia Ferreira é natural de Coimbra. Licenciada em História/var. História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo frequentado Estética e Filosofia da Arte na FLUCL, em Lisboa, sendo nessa mesma cidade que viria a concluir o mestrado em Estudos sobre a Mulher – As Mulheres na Sociedade e na Cultura, concretamente, na FCSH da Universidade Nova de Lisboa, para, em 2019, obter o doutoramento em Estudos Contemporâneos na Universidade de Coimbra com a tese intitulada O Rosto das Horas: do feminino e do masculino, com a arte. É investigadora do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX – CEIS20 e desempenha as funções de Técnica Superior na Câmara Municipal de Condeixa.