Como em tantas situações com que nos deparamos no nosso dia-a-dia, também os sismos são imprevisíveis e não “avisam” quando, onde, nem com que magnitude ou intensidade irão ocorrer. Tal reporta-nos para a questão da magnitude e da intensidade, ainda muitas vezes confundidas. Mas antes de abordarmos essa temática, é necessário referir que o nosso país é palco deste tipo de eventos geológicos, com epicentros em terra ou nas zonas adjacentes. Todos os dias, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o qual é a entidade nacional responsável pela monitorização sísmica no nosso país, disponibiliza na sua página na internet a localização dos sismos que ocorrem em território nacional e respetivas magnitudes (https://www.ipma.pt/pt/geofisica/sismicidade/). A maioria destes eventos telúricos são de baixa magnitude e com intensidade fraca a moderada. Voltemos então à questão da magnitude e da intensidade, e façamos uma breve explicação.

A magnitude de um sismo é obtida através de cálculos matemáticos com base na análise do sismograma. A magnitude reflete então a energia que foi libertada quando ocorreu a rutura na crusta terrestre que originou aquele evento sísmico. Para quantificar a magnitude de um sismo é utilizada a Escala de Richter, a qual é uma escala logarítmica de base 10. Tal significa que cada vez que se aumenta um ponto na escala a energia libertada aquando da geração daquele evento é 32 vezes maior que a do grau anterior.  Por exemplo, um sismo com magnitude 5.0 seria gerado por uma rutura 10 vezes maior do que um evento com magnitude 4.0, e libertaria 32 vezes mais energia do que este último. Tal leva-nos a uma nova questão: qual é a energia libertada num sismo? Se considerarmos um sismo de magnitude 3.0, a energia libertada nesse evento é o equivalente à energia libertada quando se faz uma explosão usando 1800 quilogramas de explosivos. Será se são raros eventos com magnitude 3.0? Na verdade, não! Por exemplo, só este ano, até esta data, em Portugal continental já ocorreram dois eventos sentidos com esta magnitude. Contudo, a Escala de Richter tem ainda outra particularidade, é uma escala aberta, ou seja, não tem limite superior. Até hoje, o sismo que ocorreu no Chile a 22 de maio de 1960 é o de maior magnitude registado, tendo tido uma magnitude de 9,5. Contudo não se sabe qual poderá ser a energia máxima libertada numa só rutura na crusta do nosso planeta!

Agora que já falámos um pouco da magnitude de um sismo, vamos conversar um pouco sobre a intensidade de um evento telúrico. A intensidade de um sismo está relacionada com a forma como foi sentido e que efeitos causou. Neste caso utiliza-se geralmente a Escala de Mercalli Modificada de 1956 (denominada MM56). Esta escala é uma escala fechada e tem 12 graus de intensidade, sendo o grau I conferido a um sismo impercetível pelas pessoas, e o grau XII a um sismo que provoca danos quase totais. Para se poder atribuir uma determinada intensidade a um evento telúrico é necessário contactar com as populações que vivenciaram esse sismo por forma a obter os testemunhos do que sentiram e quais os efeitos observados.

Regressando ao nosso país, por ano, apenas uma ínfima percentagem dos sismos registados pela rede sísmica nacional são sentidos pelas populações. Contudo, desde o início deste ano, vários habitantes de localidades do continente português sentiram sismos, embora com intensidade moderada, ou seja, não ultrapassaram o grau IV (MM56), de acordo com o IPMA. Neste caso, as populações sentiram uma vibração semelhante à provocada pela passagem de um camião, podem ter percecionado as janelas, portas e loiças a tremerem e observado objetos suspensos a baloiçarem (ex. lustres). Mas no caso da intensidade, quanto mais próximo estivermos do epicentro, maior será a intensidade, indo diminuindo com a distância por perda de energia das ondas sísmicas.

 

Ana Gomes (Geóloga)

 

Ana Gomes, licenciada em Geologia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, mestre em Vulcanologia e Riscos Geológicos e doutorada em Geologia (especialidade Vulcanologia) pela Universidade dos Açores.

É investigadora do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra e do Departamento de Ciências da Terra da mesma universidade (DCTUC), onde desenvolve investigação no âmbito da análise de dados sísmicos da estação sísmica COI do Observatório Geofísico e Astronómico da UC (OGAUC) e desenvolve ações de divulgação de ciência. É co-coordenadora do projeto “Escolas Associadas” do DCTUC e colaboradora do OGAUC.